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Moradores mapeiam violência no bairro Renato Parente


Sobral - Imagine-se na seguinte situação: você decide aproveitar um final de semana viajando, um merecido descanso após meses de trabalho, ou simplesmente para rever a família. Quando volta para casa, no final do domingo, nota algo estranho e, ao entrar em casa, tem uma desagradável surpresa, constatando que já não possui uma televisão, um notebook e outros eletrônicos, ou que até mesmo suas roupas e bijuterias foram levadas.
Esta é uma desagradável rotina no bairro Renato Parente, em Sobral, a 234 km de Fortaleza. De janeiro a agosto deste ano, foram registradas quinze invasões a residências, além de três tentativas frustradas, dois assaltos a mão armada, uma tentativa de assalto seguida de estupro e uma tentativa de assalto a mão armada. Isto levou os moradores a se organizarem em um grupo em uma rede social, no qual além de compartilharem dicas para melhorar a convivência e qualidade de vida, mobilizam-se em busca de respostas das autoridades para as suas demandas. A novidade foi a criação de um mapa virtual onde registram cada uma das ocorrências de violência no bairro, a partir deste ano.
“Percebemos que uma das grandes dificuldades era a organização destas ocorrências para que se traçasse um panorama e se pudesse cobrar com efetividade providências da polícia. Muitos moradores passam por situação de violência, mas nem ao menos registram os boletins de ocorrência (BO), se não por medo de represálias, pois os assaltantes normalmente quando presos, logo voltam às ruas, por terem dificuldade em serem atendidos pela carência de profissionais na delegacia de Sobral”, explica funcionária pública Alexandra Soares, moradora do bairro.

O bairro
Apesar de ter mais de uma década de existência, apenas nos últimos anos o mercado imobiliário está aquecido no bairro Renato Parente. Hoje é impossível transitar por qualquer uma das cerca de 40 ruas que compõem o bairro sem se deparar com pelo menos duas ou três obras em andamento. Por não ter grande fluxo de trânsito, belas paisagens, grandes áreas disponíveis para construção e facilidade no financiamento imobiliário, o Renato Parente é apontado como um dos principais alvos de especulação imobiliária, assumindo perfil residencial, de classe média, atraindo especialmente funcionários públicos.
As obras são, inclusive, um dos problemas à segurança apontados pelos moradores, pois muitos construtores deixam o material utilizado nas ruas, dificultando o tráfego e oferecendo esconderijos para criminosos. “É uma falta de respeito de alguns construtores, que literalmente se apropriam de toda a rua com material de construção e entulho. Hoje é uma dificuldade passar de carro. Há dias que mesmo trafegar de moto fica inviável, pois é material de construção, caixa d’água e massa preparada, tudo em via pública”, reclama o funcionário público Eliano Pessoa.
Por ser um bairro relativamente novo, muitos serviços básicos ainda não são oferecidos, como saneamento básico, boa cobertura de telefonia celular, abastecimento de água e energia são falhas, não há fiscalização eficiente quanto à limpeza de terrenos e a iluminação pública é insuficiente, o que levou os moradores a instalarem, por conta própria, pontos de luz nos postes, sendo estes últimos problemas cruciais para a potencialização do sentimento de insegurança. Além disso, o bairro ainda não conta com sistema de transporte público e tem grande população de cães abandonados nas ruas.

As invasões
De acordo com os moradores, as invasões ocorrem normalmente nos finais de semana, quando o movimento diminui e alguns moradores viajam. A maior parte destas ações acontece no período da noite.
Os ladrões checam primeiro se a residência escolhida como alvo tem bom sistema de segurança. No caso de cerca elétrica, jogam algo para conferir se está ativa. Se estiver ativa, desligam o quadro de energia para que a bateria descarregue e possam voltar posteriormente. No caso da cerca estar inativa ou de a residência não possuir o dispositivo, eles a cortam ou pulam o muro. Como muitas casas não tem grades, simplesmente arrombam portas e janelas e praticam o roubo, aproveitando-se do pouco movimento das ruas.
Contudo, já houve casos nos quais os ladrões demonstraram grande ousadia, quebrando o muro nos fundos de uma casa, encostando um caminhão e levando tudo sem serem incomodados. Em outras ocasiões, forçaram os portões, retirando dos trilhos, ou simplesmente cortaram o portão e entraram.
“Nem me mudei para o bairro ainda, pois minha casa ainda está em construção, e já me sinto inseguro. A primeira coisa que corretores e moradores mais antigos alertam é para que invista em sistema de segurança, nem que seja pelo menos a cerca elétrica, que embora ressaltem que não nos deixa invulneráveis, pelo menos dificulta a ação dos bandidos”, afirma o jornalista Pedro Nobre.
Outro morador, Victor Hugo Lopes, conta que em um domingo a noite, saiu de casa por pouco mais de uma hora e teve a ingrata surpresa de se tornar alvo de um dos arrombamentos. “Eu e minha esposa fomos visitar familiares por volta das 20h10min e retornamos às 21h15min. Ao chegarmos em casa vi o portão entreaberto e, por algum momento, achei que tinha sido problema no automatizador, só depois de tentar abri-lo vi que o mesmo estava fora do trilho. Os ladrões adentraram a minha casa tirando o portão do trilho e arrombando uma janela de vidro que, na época, não tinha grades”, relata.
Depois do roubo, mesmo tendo tomado diversos cuidados com a segurança, Victor e sua família não se sentem tranquilos. “Hoje vivemos amedrontados. Não saímos de casa para passar muito tempo e desconfiamos de carros e motos que ficam parados em frente ao Clube dos Calçadistas. Depois do ocorrido já gastei em melhorias na segurança da minha casa, como instalação de grades nas portas e janelas, estou criando um cachorro de grande porte, e pretendo montar um circuito completo de segurança eletrônica”.

Assaltos
Mas não são apenas as invasões que tiram o sono dos moradores. Ultimamente, tem crescido a quantidade de assaltos e tentativas de assalto no bairro. De acordo com eles, o fato do Renato Parente ser atendido pela mesma viatura que atua em outros bairros torna o policiamento ineficiente, favorecendo a ação de criminosos, que praticam os crimes e têm tempo suficiente para a fuga. “Até chamar a polícia fica difícil, pois nem todo mundo tem telefone fixo e celular não pega bem no bairro”, conta uma das vítimas, que não quis se identificar.
No início do ano, uma moradora foi vítima de assalto quando entrava em casa. Insatisfeito com o celular, único objeto que a mulher trazia consigo, o assaltante resolveu tentar estuprá-la. A vítima reagiu e foi socorrida por seu noivo, André Mesquita, que após lutar com o criminoso, o imobilizou com a ajuda de vizinhos. “Aconteceu em um domingo por volta das 20h. Minha noiva estava chegando em minha casa pilotando minha moto quando foi abordada pelo assaltante, que anunciou o assalto e tomou seu celular. Não satisfeito, começou a ameaçá-la querendo mais alguma coisa. Como ela não tinha mais nada, ele começou a dizer que era para ela tirar a roupa e empurrá-la para o terreno baldio que fica ao lado da minha casa. Foi aí que ela, em um ato de coragem, começou a gritar e bater no portão da minha casa pedindo socorro. Eu abri o portão, vi o assaltante agredindo e tentando tirar sua blusa e corri para cima dele, quando começamos a lutar e, com a ajuda da minha noiva e de outra vizinha, conseguimos imobilizá-lo até a chegada da polícia. Infelizmente foi uma situação muito ruim e com isso ainda temos medo de entrar em casa muito tarde. Para que você possa saber, esse assaltante, que era reincidente, passou algum tempo preso, mas já foi solto, ou seja, é questão de tempo para que volte a praticar seus delitos”, relata André.
O mesmo assaltante já havia vitimado pelo menos mais 10 mulheres no bairro da mesma forma. Entre as outras vítimas, Mira Martins. “Estava chegando do trabalho, por volta das 18h, quando ele me abordou no portão e levou tudo o que eu trazia”, relembra. Mira conta que além deste caso, já foi assaltada a caminho de casa, em uma avenida que dá acesso ao bairro, em outra ocasião foi perseguida por um criminoso em uma moto, de quem escapou por sorte, ao avistar pessoas em uma calçada próxima e, outra vez, teve a casa arrombada. “Estava viajando, quando fui informada que minha casa tinha sido arrombada. Pularam o muro de trás, arrombaram a porta da cozinha e levaram um notebook, dois aparelhos de DVD, dinheiro e muitos produtos de beleza. Deixaram a casa toda fora do lugar, ou seja, reviraram simplesmente tudo, a TV, computador e outros objetos estavam fora do lugar com os fios enrolados, prontos para serem levados, porém algo deve ter acontecido e não deu tempo levá-los”.
Em junho, uma imobiliária localizada na entrada do bairro quase foi assaltada. Na mesma semana, um mercadinho foi o mais recente alvo. Tanto o proprietário do estabelecimento quanto um cliente foram assaltados.

As respostas
O Prefeito de Sobral, Clodoveu Arruda, prometeu em uma das reuniões do Orçamento Participativo que uma das principais demandas dos moradores, a iluminação pública em todo o bairro, será atendida, mas não estabeleceu previsão de execução. Quanto ao reforço do policiamento, nenhuma medida concreta foi apontada pelas autoridades da Segurança Pública. Quanto ao material de construção e entulho nas ruas, o Secretário de Obras, Mário Parente, informou que serão feitas blitzen durante a noite para recolhimento de tudo o que estiver obstruindo as vias públicas. Enquanto isso resta aos moradores continuarem rezando para não se tornarem uma das próximas vítimas.

Mapa disponível em http://goo.gl/9YkBN

Matéria enviada por e-mail através do Jerfson Lins
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